Só de lembrar do doce pecado teu,
do que tanto tacitamente prometeu,
- ser só minha, corpo e alma -,
já me faz adocicado o paladar,
acionado, mesmo longe, o meu radar:
era bom ter tua pele sob a palma.
Inda é bom a memória do teu fogo!
Piso em brasas, sob a égide do rogo
- ter de volta o fogaréu...
Não me queixam os pés, pois toda brasa
é resquício do calor daquela casa
sapecante de prazer deste teu mel.
Não escrevi sobre o busto da amada,
quando o seio desnudo reclamava,
com o meu toque a poesia.
Lá se vão as chances que perdia
a cada noite, cada tarde, cada dia,
vê-la intocável - eu merecia!
Eu fui criança, perdido num jardim,
vi a macieira do amor dizer pra mim,
"come esta fruta, ela é madura!",
mas fui correr atrás de folhas e de flores,
pensando ali estarem certo meus amores,
desemboquei na amargura
de correr desesperado atrás do mundo,
e de num lapso momentâneo, num segundo,
ver a fruta despencada;
inda ouvir a macieira entristecida
dizer-me que a fruta era a minha vida.
E minha vida no chão, despedaçada!
Dos seus pedaços cuido agora com carinho
e não me sinto de verdade tão sozinho
sou feliz pelo contato.
Nas minhas mãos, pedaços me confundem...
sem saber como enfim eles se unem,
mesmo assim inda sou grato!
Nunca mais, nunca mais eu perco a chance
caso um dia esteja ao meu alcance
a maçã mais madura do jardim,
cuidarei de aguardá-la até a cora,
sem tocá-la, nunca mais vou jogar fora
o cuidado, a hora certa, do início o fim.



vc e sua poética implacável.... delirante... apaixonante.... linda....... (Neves)
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